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Para ler Dostoiévski

Um pequeno guia para quem quer aventurar-se no universo literário de Fiódor Dostoiévski.

Se tem algo que posterguei nessa vida foi começar a leitura das obras de Fiódor Dostoiévski. Não que me orgulhe disso (bem pelo contrário), mas realmente não lembro como consegui me formar em Letras e sair ilesa, sem ter lido qualquer um dos clássicos da literatura russa.

Mas como comentei no post introdutório da serie Cura pelos Clássicos da Ficção, não é por nada que um livro é considerado clássico. E eu que sempre gosto de concluir tudo que começo, estou decidida a ler ao menos alguns romances de Dostoiévski. O grande porém – e provavelmente por isso procrastinei tanto nesta tarefa – é não sabia por onde adentrar neste universo.

Dito isso, parti para o atual “pai dos burros”, mais conhecido como resultado de buscas do Google e encontrei um texto muito interessante, e que decidi trazer para cá, caso você também esteja planejando o mesmo tipo de aventura. Também porque não creio ser muito recomendado lançar-se nesse universo pela obra mais conhecida do escritor russo, “Crime e Castigo”. (Há quem afirme que crime foi ele ter escrito esse livro e ler é o castigo).

Abaixo replico o que aprendi, com uma espécie de guia/lista. Espero que faça bom proveito!

Para ler Dostoiévski

Mencione Dostoiévski para muitas pessoas e elas imediatamente conectarão o autor a romances longos e sombrios cheios dos piores tipos de tormento espiritual – tanto para o leitor quanto para seus personagens. E há um pouco de verdade nisso. Seus romances, e os personagens que os habitam, estão preocupados com o que o próprio escritor chamou de “questões malditas”: vida e morte, fé e dúvida, bem e mal. 

Mas essa reputação não deve te afastar de Dostoiévski, porque mesmo quando ele fala de sofrimento, eles são parte de enredos que têm mais em comum com ficção de aventura do que literatura intelectual. A própria vida do escritor russo parece o enredo de um de seus romances. 

Do radicalismo juvenil que o viu absolvido de uma sentença de morte e cumprindo quatro anos em um campo de trabalhos forçados da Sibéria, Fiódor Dostoiévski acabou se tornando uma figura conservadora. Nesse meio tempo, sofrendo de epilepsia e vício em jogos de azar, ele evitou por muito pouco perder os direitos autorais de todas as suas obras depois de assinar um contrato imprudente com um editor e passou vários anos vagando pela Europa para escapar de seus credores. 

Apesar da dor de perder dois de seus quatro filhos, seu segundo casamento com Anna Snitkina, que tinha menos da metade de sua idade, acabou trazendo ordem para a sua vida, mas sem afetar seus métodos criativos que aparentemente prosperaram no caos. Pelo contrário, sua escrita continuou a florescer.

Há muitos lugares onde você pode começar a explorar essa obra literária riquíssima, mas aqui está uma lista por onde ingressar no universo literário de Dostoiévski.

  • O crocodilo – (1865) é um conto sobre um homem “culto”, Ivan Matveich, que é engolido inteiro por um crocodilo que está sendo exibido em uma galeria comercial da moda em São Petersburgo. No entanto, do ventre do réptil, Matveich continua a pontificar sobre as teorias econômicas da época. Sua situação e o espetáculo popular que ela cria têm muito a dizer sobre propriedade, comércio, modernidade e ocidentalização. Mas, tanto quanto qualquer outra coisa, vale a pena ler porque é engraçado e vai dissipar quaisquer preconceitos sobre Dostoiévski ser miserável, digno e obcecado com o sofrimento. E o cenário absurdo mostrará a você o quão longe o autor está do tipo de realismo de meados do século 19 ao qual ele é frequentemente associado.

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  • Sonho de um homem ridículo – se O Crocodilo é Dostoiévski em sua forma mais ridícula, então o conto Sonho de um Homem Ridículo(1877) pode, ironicamente, representar o autor em sua forma mais sublime. Aqui seguimos o narrador sem nome – um ateu, misantropo racionalista – que chega à conclusão de que não há sentido em viver. Sonha com o suicídio e uma jornada além da sepultura para um mundo edênico de absoluta beleza, harmonia e felicidade. Mas será que é tão perfeito quanto parece? Cristalizando algumas das ideias mais importantes de Dostoiévski, incluindo a natureza da inocência, a existência de outros mundos e como os acessamos, a história é a versão mais desenvolvida de um sonho que também aparece em seus romances Demônios (1872) e O Adolescente (1875). Os sonhos desempenham um papel essencial no mundo ficcional de Fiódor Dostoiévski, atuando como premonições, advertências e apelos à consciência, revelando a proximidade da morte e o potencial de vida. Em apenas algumas páginas, o Sonho de um Homem Ridículo é tudo isso e muito mais.

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  • Gente pobre – voltando ao início da carreira de Dostoiévski, este é o primeiro romance publicado pelo autor (1846). A princípio pode parecer uma história bem séria, com conotações sentimentais, mas além das paixões escondidas logo abaixo da superfície do enredo, é uma excelente forma de como o autor concebe e constrói seus personagens, e como seu modus operandi é diferente de outros escritores. A história segue o amor não correspondido de Makar Devushkin – um pobre funcionário do governo de meia-idade de São Petersburgo – por sua jovem parente Bárbara Dobroselova. Na cena mais trágica da novela, em pé desgrenhado e patético na frente de seu superior no trabalho enquanto um botão cai de seu uniforme esfarrapado, ele entende que as profundezas em que se pode afundar são reveladas mais dolorosamente no olhar do outro. 

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  • Memórias do subsolo – após esta introdução pequena lista de introdução, você estará pronto para mergulhar nas obras pelas quais Dostoiévski é mais famoso: seus romances psicológicos e ideológicos. Neste ponto, é recomendado recorrer ao Memórias do subsolo (1864), porque é aqui que ele estabelece pela primeira vez muitas das ideias que ele passa a explorar em seus “grandes” romances. Nesta obra o narrador é movido pelo rancor e continua sendo um sério candidato ao título de protagonista literário mais desagradável que você provavelmente encontrará. Na primeira parte, ele nos presenteia com suas ideias, notadamente a rejeição da racionalidade em nome da liberdade que é o bem mais precioso da humanidade e a chave para manter a individualidade. Mas na parte dois nós o vemos 20 anos antes, impelido a rejeitar os outros e prejudicar a si mesmo para provar essa liberdade, e incapaz de aceitar amor e redenção quando eles são oferecidos. E entendemos que ele está de fato mais preso do que os racionalistas cuja adoção do determinismo ele condena, e que, apesar de toda a sua conversa sobre liberdade e individualidade, Notas do Subsolo há muito tem a reputação de texto fundamental da filosofia existencial, e isso levou a algumas interpretações bastante simplistas e estreitas de Dostoiévski

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Por fim, escolha entre os demais romances – da minha parte decidi seguir a ordem cronológica que replico abaixo:

1846 – Gente Pobre

1846 – O Duplo

1847 – A Senhoria

1848 – Noites Brancas

1849 – Niétotchka Niezvânova

1849 – Um Pequeno Herói

1859 – A Aldeia de Stepántchikovo e seus Habitantes

1859 – O Sonho do Titio

1859 – O Sonho de Petersburgo em Verso e Prosa

1861 – Humilhados e Ofendidos

1862 – Recordações da Casa dos Mortos

1862 – Uma História Desagradável

1864 – Memórias do Subsolo

1865 – O Crocodilo

1866 – Crime e Castigo

1866 – Um Jogador

1869 – O Idiota

1870 – O Eterno Marido

1872 – Os Demônios

1873 – Bobók

1873 – Diários de um Escritor

1875 – O Adolescente

1876 – O Mujique Marei

1880 – Os Irmãos Karamazov

Claro que uma procrastinadora de leituras profissional como eu não se atreveria a dizer que vai ler todos, mas por hora me comprometo com os que destaquei em negrito. Também não prometo fazer resenha de todos, mas já adianto que ando bem contente com a leitura de Gente Pobre!

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