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Depressão na sociedade moderna

Entre setembro de 2004 e setembro de 2007, trabalhei como redatora do Jornal Folha Giruaense de Giruá, no RS. Dentre as diversas pessoas que pude entrevistar, merece destaque a conversa que tive com o Psiquiatra Ricardo Nogueira, em uma entrevista que transcrevo abaixo, sobre depressão.

Primeiros sintomas da depressão

O primeiro sintoma da depressão é o medo. A pessoa tem medo de acordar

“O que é que vai me acontecer, eu não vou ter condições de enfrentar os meus colegas, de enfrentar as situações que eu tenho, as dívidas que eu tenho, as desesperanças, os desamores. Eu tenho medo de enfrentar as coisas, de ver o sol nascer”.

O medo é o pior sintoma que o paciente sente. Na verdade, ele tem medo de viver, prefere morrer. Porque o sono é uma pequena morte. Então a pessoa só quer dormir. Ela tem medo de acordar, porque quando dorme, sonha. Só que quanto pior a situação, melhor é o sonho que temos. Por isso a pessoa que não tem nada, sonha que come, se alimenta em sonho. No sonho a pessoa pode realizar tudo o que quiser. Se a pessoa perdeu alguém, no sonho ela pode conversar com esse alguém. É por isso que nós precisamos sonhar, é importante o sonho.

Sonhos e medos

Pior do que não sonhar é nem dormir. Inicialmente todo mundo sonha e depois quando a pessoa piora da depressão, já nem dorme mais. Quando a pessoa não sonha, ela não tem mais perspectiva. Quando você perde um amor, no início fica a raiva, o ódio, a saudade e depois nem isso.

Passa a restos de saudade e depois nem sonha mais porque não tem mais perspectiva. A perspectiva da espera, porque a palavra esperança vem de espera. Então a pessoa espera que vai melhorar. Espera que aquela pessoa volte. E o que acontece: ela não volta. É uma perda, é uma morte. E em todas as mortes a pessoa morre um pouco junto, porque na verdade quando nascemos começamos a morrer. Morremos um pouco a cada dia. E a depressão está muito ligada a esta questão da morte.

Quando a pessoa está deprimida não consegue viver, muitas vezes ela nem sonha. Acabou a esperança. Parece que as pessoas estão muito desesperançadas. A desesperança é como o desamor, como a falta do amor.

Amor e egoísmo

O amor é uma coisa que nos faz crescer, nos faz viver, nos faz sobreviver. Hoje nós estamos vivendo em um mundo onde existem dois tipos de felicidade: a democrática e a aristocrática. Como afirma o Flávio Gikovati, psiquiatra, autor de vários livros “A felicidade democrática é o amor, porque todo mundo tem acesso a ele e é gratuito. E é muito difícil de achar.”

O ser humano hoje está se prendendo muito a uma felicidade aristocrática que é composta pela beleza, pela riqueza e pela inteligência. Dessa forma existe uma grande disputa, porque isso é um mercado capitalista que investe na infelicidade. Porque a infelicidade dá muito mais dinheiro.

Só para se ter uma idéia: em São Paulo existem dez milhões de pessoas. Dessas, três milhões vivem sozinhas. Então são três milhões de apartamentos, três milhões de televisores, e etc. Se essa pessoa morasse com outras pessoas, eles dividiriam tudo isso. E isso é uma coisa que está acontecendo em todas as grandes cidades do mundo. As pessoas estão ficando solitárias, sozinhas e a solidão leva a uma certa infelicidade. Isso está sendo estimulado. As pessoas começam a investir muito na beleza. As pessoas estão se jogando muito nisso e estão ficando cada vez mais egoístas. Sempre fomos egoístas, mas estamos ficando cada vez mais.

Solidão
Estamos vivendo isolados, em ilhas. Temos uma sociedade velha. Porto Alegre é a cidade que tem mais mulheres solitárias do Brasil. As pessoas vivem só. E onde é que estão estas pessoas? Estão no mercado de trabalho e cada vez estão mais sozinhas.

Estamos em um momento de transição. Final de um velho século e início de um novo. E não se sabe qual é o parâmetro correto, qual é a linha. A gente vive, como diz o Papa Bento XVI “Na ditadura do relativismo. Nada é claro”. Então as pessoas se perguntam “O que é que eu faço da minha vida? Vou ter uma família, mas família é um problema, porque existem muitos conflitos. Ou vou ficar sozinho, comigo mesmo.” E estimulamos em parte isso, porque a pessoa tem que estar bem e em paz consigo mesmo. Isso estimula o egoísmo e o narcisismo como uma defesa contra o medo da depressão.

Felicidade

O grande medo mesmo é de ser feliz. Não se sabe mais o que é felicidade. Por exemplo, Stephan Kinitz diz que “A felicidade é a medida entre o que você tem e o que você quer ter. E para isso você tem que ter competência, capacidade, objetividade.” Cada um diz uma coisa, e sempre tem aquele que diz que felicidade não existe.

Albert Camus em seu livro A Peste diz que “Não existe felicidade sem dor”. Observamos que existe muita informação. Antes tinha que nascer, casar, sobreviver, ter filhos e pronto. As pessoas estão questionando isso, hoje tudo é questionável. Muita coisa mudou.

Antes existiam dois tipos de convivência: a familiar, reprodutiva e o amante, prazer. De um lado a virtude e de outro o prazer. E essa questão do prazer hoje está muito predominante. Vivemos pelo prazer. É um certo hedonismo, do prazer para o prazer. Mas isto também provoca um vazio.

Juventude e consumo

Na Bienal do Livro no Rio de Janeiro, Lolita Pig, que escreveu sobre a juventude parisiense e que é igual à de Londres, Berlim, Nova York, São Paulo, Rio de Janeiro, afirmou que a juventude atual é uma juventude que se preocupa muito com a estética, com o belo e que essa preocupação sempre existiu, desde a Grécia. Mas que hoje ela é mais acentuada. As pessoas trocam o bom pelo belo.

A pessoa tem que gastar no shopping, sair muito, usar drogas cada vez mais, mas isso tudo não preenche o vazio que existe dentro delas. Se não existir isso, não sabem sobreviver. Na verdade o que se vê é uma grande sociedade de consumo e uma infelicidade muito estimulada, que leva à solidão porque a solidão dá mais lucro que a felicidade.

Na felicidade mora todo mundo junto, é uma casa só para cinco ou seis pessoas, com tudo para dividir. Atualmente não queremos dividir nada. Vivemos submetidos a estes ícones do mercado. É preciso ter as coisas para ser aceito no mercado. E esse mercado dita normas.

Com isto estão se perdendo muitos valores, tudo está ficando meio massificado, tudo está ficando meio igual. Tudo tem que ser muito rápido. Todos querem levar vantagem em tudo. A pessoa com quem você está é bonita e interessante, mas aparece outra que é mais interessante, que tem melhores condições financeiras e você deixa ela. Mas isso também não é novidade.

Relacionamentos

A novidade é que os relacionamentos são tratados diretamente agora, ao contrário de 100 anos atrás, onde o casamento era definido previamente pelos pais, era um negócio. O relacionamento sempre foi um negócio, só que era um negócio indireto, que não tinha afeto, então a pessoa não tinha a obrigação de ser feliz.

Agora é a pessoa quem tem que procurar o seu próprio negócio, o próprio relacionamento. Aí investe e na maioria das vezes se ilude, se frustra. Porque resolveu investir, e em um primeiro momento valia a pena, depois poderia não valer mais. Agora o que acontece é que tudo é relativo, enquanto está bom, tudo bem. Antigamente não. Era definida a pessoa e tinha que ficar junto até o final.

Por um outro lado isso era mais cômodo, a pessoa tinha que se conformar. Atualmente não existe isso. As pessoas não estão mais se conformando, aceitando as coisas. Acontece uma frustração muito grande, uma depressão muito grande.

Hoje a depressão é uma epidemia. Todo mundo está deprimido, a diferença é de intensidade. Às vezes as pessoas acham que é apenas tristeza, mas não. E o pior é que gostam de ser deprimidas.

Existe um diálogo no filme Antes do Pôr do Sol onde um personagem diz que “As pessoas não mudam. Os deprimidos vão ser sempre deprimidos”. O homem tem uma tentação a viver mal. O homem não suporta a felicidade. Adão e Eva não agüentaram viver no paraíso. É como a droga, uma coisa que faz você transcender.

Drogas

O problema da droga é que ela é muito boa, mas se paga um preço muito alto, e você fica dependente. E o homem tem essa dependência. É uma característica nossa, essa carência, essa falta, esse eterno vazio existencial. Parece que sempre está faltando alguma coisa.

E o grande problema do desejo é que quando a gente satisfaz um, surge outro. Você quer muito e quando consegue, sente-se insatisfeito. Todo ser humano é naturalmente insatisfeito. Por um lado é bom. Então existe esse desafio que na verdade a pessoa tem que provar para si mesmo. E esse para si mesmo parece que tem que provar para os outros.

Então tem que fazer as expectativas que os outros tem de ti, que na verdade são expectativas que você mesmo tem sobre você. E essa expectativa muitas vezes não chega, então a pessoa vai se frustrando, vê que seu tempo está acabando e que não está conseguindo. E aí surge essa grande depressão que as pessoas estão vivendo hoje. O segundo sintoma da depressão é o stress.

Stress

O stress é doença, é um estado de alerta que avisa que algo não está bem. E a pessoa começa a ficar ansiosa. E passa para a depressão. E dentro disso, o grande sintoma é o medo. Mas o medo maior é de ser feliz.

Por isso nenhuma paixão dá certo. Porque nas paixões procuramos estar junto com pessoas iguais a nós. E sempre explode tudo e brigamos porque sabemos que vai acabar sendo feliz. Então as paixões sempre acabam, porque ninguém agüenta aquela loucura.

Amor

O amor não está em pessoas iguais e sim em pessoas diferentes. Porque aí você pode odiar o outro. Quando você ama alguém, você tem vontade de matar ela, e você bate, agride e vive mais tranqüilo. E daí você não precisa ser feliz. A paixão não. A paixão é uma felicidade imensa, você vive um clímax como se estivesse sempre inebriado, em êxtase, só que você não agüenta, você não suporta ser feliz. Porque tem medo. O medo de ser feliz.

Temos que ter medo de ter medo. Porque se a pessoa tem medo, não faz nada. Aí vai se fechando, se encaramujado no seu próprio espaço. Uma das características da depressão é a pessoa ficar ensimesmada, ela fica em cima de si mesmo. Não abre o espectro, não anda, não trabalha, não cria porque vai se fechando cada vez mais em seu próprio corpo. E adoece. No último Congresso Internacional Sobre Depressão se viu a questão da dor associada à depressão. A pessoa vive em um verdadeiro pânico.

Sociedade depressiva

Vivemos em uma sociedade depressiva, que precisa do consumo para se satisfazer e não se satisfaz no todo. Temos uma falta, um vazio existencial. Todos nós. E essa é uma questão pessoal e é aí que fica contraditório e paradoxal que ninguém preenche esse vazio. Ninguém é capaz disso. Isso é você quem tem que preencher.

Por exemplo: as mulheres costumam preencher isso de forma magnânima quando elas tem filhos. Porque isso é uma coisa que é delas e ninguém pode tirar. Elas tem um amor eterno e incondicional, que é o amor perfeito, o amor de uma mãe por um filho e de um filho por uma mãe.

Os homens não têm esta capacidade. O homem precisa criar coisas para sentirem-se transcendentais. O homem é diferente da mulher, e nisso ele se frustra também. E quando ele vai ver na verdade o que importa da vida é procriar, só isso. Ele só serve para isso.

Depressão, um problema mundial

A depressão hoje é um problema mundial. E é muito mascarada. Ela vem através do alcoolismo, a maioria dos alcoólicos são deprimidos. As nossas aflições, as nossas angústias, nossas ansiedades, o próprio stress está por trás da depressão.

A depressão é a quarta maior doença em incidência no mundo. Ela causa outras doenças como câncer e doenças cardíacas. A pessoa deprimida vai perdendo a imunidade, não se alimenta, não se cuida, não tem fé, não acredita no tratamento.

Temos que estimular a pessoa a lutar. Vencer a própria doença, vencer a depressão. Começa o inverno e a pessoa começa a se sentir mais triste. Porque existe uma influência ambiental também. Nos países europeus onde existe um inverno maior e mais rigoroso, existem mais casos de depressão.

Aqui no Brasil, a maior incidência de depressão é de São Paulo para baixo, por causa do frio, que exerce influência. E na nossa região, noroeste do RS, nós temos a Síndrome da Depressão Rural, que é referente ao uso de organos fosforados, existente nos venenos de uso nas lavouras, muito presente em descendentes da etnia alemã. Em Santo Cristo e em outras cidades onde prevaleceu a colonização alemã há uma incidência de suicídio bastante alta.

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