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Cura pelos Clássicos de Ficção: Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca

Além de um mestre do gênero policial, Rubem Fonseca inspira gerações de escritores e seu romance Bufo & Spallanzani conquistou leitores no mundo todo.

Sétimo post crônica de livro da serie Cura pelos Clássicos de Ficção.

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Preciso confessar que Rubem Fonseca me moldou como leitora e escritora. O primeiro livro que comprei na vida foi uma versão bem simples de Feliz Ano Novo e foi assim que fui conquistada pela realidade impressa em forma de ficção. Cedo aprendi que nem toda história tem final feliz e por isso nunca esperem de meus livros um “e viveram felizes para sempre”. Culpa do escritor que nos deixou em abril do ano passado.

Um dos mais importantes nomes da literatura brasileira (era romancista, contista e roteirista), nascido em Juiz de Fora (Minas Gerais), Rubem Fonseca viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro. Em 1952 começou sua carreira na polícia e, como escritor, sempre se recusou a dar entrevistas.

Sua escrita é considerada sombria e corajosa, cheia de violência e conteúdo sexual, e geralmente tem cenários urbanos. Afirmou certa vez para um amigo pessoal que “um escritor deve ter a coragem de mostrar o que a maioria das pessoas tem medo de dizer”. Seu trabalho é considerado pioneiro na literatura brasileira, até então voltada principalmente para o meio rural e tratando as cidades com um ponto de vista muito tendencioso.

Quase todos os escritores brasileiros contemporâneos reconhecem a importância de Rubem Fonseca, e alguns autores da nova geração, como Luis Ruffato, afirmam que ele é uma grande influência. Começou sua carreira com contos, e estes geralmente são considerados a melhor parte de seu trabalho pela crítica. Seu primeiro romance popular foi “A Grande Arte”, mas “Agosto” costuma ser considerado seu melhor trabalho como romancista. Em 2003, ganhou o Prêmio Camões – considerado o mais importante prêmio da língua portuguesa – e o Prêmio Juan Rulfo – prêmio de literatura latino-americana e caribenha.

Escolhi Bufo & Spallanzani para esta serie por ser o livro do escritor que mais gosto, e abaixo eu explico porque.

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Falei que Rubem Fonseca me moldou como leitora, pois com Bufo & Spallanzani comecei a apreciar o gênero policial e investigativo, com o tanto de violência urbana que sempre foi característico do autor. E como escritora, este foi um dos livros que mais me inspirou, e não somente na composição de contos. Talvez me identifique com a persona do escritor (personagem principal deste livro), ainda mais se considerar o fato de ser considerada uma mulher feminina, mas de mentalidade masculina.

Tudo por culpa da minha leitura (precoce, é bem verdade) deste que é um dos melhores livros do gênero escritos em língua portuguesa, ao menos na minha modesta opinião. Como já comentei por aqui quando lancei meu primeiro livro – 11 Contos para quem tem insônia – eu sempre quis ser escritora. E este foi o livro que moldou o tipo de escritora que eu sempre quis ser. Não que escreva necessariamente este gênero. Aqui falo de estilo de escrita: direta, um pouco crua, sem medo de abordar a morte, a violência, o crime e a realidade, para criar uma história com pitadas de surrealidade.

Na introdução magnífica desta que considero uma das melhores obras de Rubem Fonseca, algo que me deixa fascinada: as muitas referências a outros escritores. O personagem principal conta para uma de suas amantes sobre um pesadelo que teve com Tolstoi.

“Neste pesadelo, Tolstoi me aparece todo vestido de preto, suas longas barbas brancas desalinhadas, dizendo em russo ‘para escrever, fiz este gesto duzentas mil vezes'” (…) Então me vem a convicção de que morrerei antes de realizar esse esforço sobre-humano. Acordo aflito e infeliz e fico sem dormir o resto da noite. Como você sabe, não consigo escrever à mão, como deveriam escrever todos os escritores, segundo o idiota do Nabokov.”

Sou grande apreciadora de referências, e a leitura deste livro é um prato cheio. Esse tipo de recurso linguístico não serve apenas para exaltar o conhecimento de quem escreve, mas principalmente para nos instigar a curiosidade por outras obras, músicas e também fatos históricos. Sem dúvida, uma ótima influência!

E para quem gosta de adaptações para o cinema, existem várias para as obras de Rubem Fonseca. Além do filme de Bufo & Spallanzani (de 2001), o romance Agosto (sobre os acontecimentos que culminaram no suicídio do então presidente Getúlio Vargas) foi adaptado em forma de minissérie pela Globo, entre vários outros.

Não se espante com o tamanho do livro. Sem spoilers, digo apenas que a leitura é fácil e divertida, de uma fluidez impressionante. E que agrada qualquer tipo de leitor, independente de preferência por gênero literário. Leia e depois me conta se estou certa ou não.

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