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Sessão de Quinta: Loucura

Do que você tem medo?

Morador de rua servindo de obstáculo na calçada - Imaginação Fértil

Servindo de obstáculo humano, na rua perto de nossa casa. Logo depois alguém o acordou e ele saiu.

Antes de mais nada, é preciso contextualizar; o mote do dia é curto e sua compreensão é difícil. Por isso segue o cenário para as divagações do dia – uma vez que parte delas é responsável pelo sumiço de meu sono.

Nós moramos na região central de Bruxelas. Para que visualizem melhor, descrevo: no centro está a principal atração turística da cidade, a Grand Place e a paisagem das ruas adjacentes a este ponto de referência conta com um misto de tudo.

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Aspecto da Grand Place de Bruxelas, em dia de movimento médio de turistas.

Tem prédios novos; alguns bem modernos e sem identidade arquitetônica; outros pontos turisticos espalhados; muitas lojas de todos os tipos; galerias; restaurantes com lindas varandas e cadeiras na calçada; hotéis chiques; hostels; praças; igrejas; estabelecimentos governamentais… A diversidade de elementos é grande e impressiona.

A região é de grande circulação, por contar com tudo o que é necessário para se viver: estações de metro, linhas de ônibus, comércio, pontos turísticos, grandes empresas, hotéis, restaurantes…Locais e turistas fazem da região constantemente muito movimentada.

É grande, em um primeiro momento, o contraste que vemos entre as boutiques e os night shops que dividem um espaço tão privilegiado e de grande circulação. Para quem não conhece estes últimos, são mercadinhos “quebra-galho”, que funcionam 24h por dia e vendem artigos de primeira necessidade – comida industrializada, cigarro e bebidas.

Por conta de todos estes elementos reunidos nesta região, é grande também a concentração de moradores de rua, que praticamente moram nas proximidades desses night shops – nas proximidades de nosso prédio e das saídas do metro, tem vários deles.

Sim meus amigos, não se enganem: Bruxelas tem moradores de rua tanto quanto o centro de Porto Alegre. A diferença? Aqui só se percebe que são moradores de rua porque circulam com seus pertences – malas e sacolas; costumam estar sempre nos mesmos lugares e com o mesmo grupo; eles tem conversas eufóricas e em linguagens imperceptíveis (ok, podem estar falando em holandês, mas em geral, são resmungos); eles nos abordam pedindo comida ou dinheiro.

Em geral eles estão limpos e com roupas limpas. Já vimos eles recebendo atendimento médico (estão sempre de olho na saúde deles e mesmo assim, mais de 70 moradores de rua morreram no inverno passado). Alguns tem cachorros fofos, poucos tem aparência de drogado, raramente eles abordam as pessoas.

Não acho estranho que se concentrem nessa parte da cidade, pois assim tem acesso fácil a turistas, trocados (é só colocar um copinho com um cartaz com frase de humor que as pessoas depositam moedas), além de cigarro e bebida há qualquer hora. 

Morador de rua bebendo sentado nos sacos de lixo - Imaginação Fértil

Mesma rua perto de casa. Na frente dele, tem um night shop. Muitos deles se reúnem para beber e conversar (alto), nas floreiras em frente ao noso prédio.

Loucura

Notem, eu dei uma bela volta para chegar até aqui. Isso porque em geral, estes moradores de rua me perturbam hoje menos do que quando morava em Porto Alegre. Talvez tenha me acostumado, pois lá não morava a região central onde eles se concentram.

O que incomoda realmente é o que percebemos: como é triste o nível de degradação humana por conta da loucura que um ser humano pode chegar. Digo isso porque aqui, muito mais do que em Porto Alegre, somente uma pessoa fora de sua consciência moraria na rua: sobra emprego, tem suporte do governo para quem quer trabalhar, qualquer função recebe o necessário para uma vida digna; é frio; a Polícia está sempre removendo eles de suas acomodações improvisadas nas estações de metro. O que leva uma pessoa a viver na rua? Para mim, somente a loucura.

Infelizmente já vimos algumas coisas bem deprimentes, como um rapaz bem jovem, de bermuda em um dia frio, circulando dentro da estação todo sujo com a própria m.; uma mulher fazendo xixi nas próprias calças dentro da estação; um caído de bêbado, com a cara na calçada, completamente apagado; outro dormindo na calçada, servindo de obstáculo para quem transitava; um feliz da vida tomando cerveja sentado em sacos de lixo, como se estivesse em uma poltrona… As fotos que ilustram esse post são de duas dessas ocasiões.

Coisas estas todas que me levam à pausa deste raciocínio tão longo e analítico, que acabou por me tirar o sono.

Eu não tenho medo de morrer – concluo. Esta é a única certeza que temos em nossa vida. Eu não tenho medo de ficar sozinha, pois sozinhos sempre estamos com nossa consciência e no final, nós sempre somos a única coisa que nos resta. Eu não tenho medo de doenças, acidentes ou tragédias, pois para isso, basta estar vivo. Não tenho medo dos mortos, pois quem se foi deixa apenas lembranças.

Eu tenho medo é de ficar louca e acabar na rua como uma indigente, como uma destas pessoas que vejo todos os dias, bebendo e fumando, sem rumo, pelas ruas de Bruxelas ou de qualquer lugar do mundo. Pois não existe para mim maior degradação humana do que a falta de sanidade mental.

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