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Livro: 50 Anos a Mil – Lobão com Cláudio Tognolli

Tenho uma certa predileção por biografias, não nego. O elemento plausibilidade sempre me foi essencial – afora quando se trata de realismo fantástico – a ponto de querer a todo custo encontrar fonte que confirmasse a existência de Tróia e quiçá, de Ulisses. Mas neste momento quero falar de um outro herói, bem brasileiro, bem atual e muito real. Para muitos um anti-herói, é verdade, quem sabe um Macunaíma moderno: o caríssimo João Luiz Woerdenbag Filho, vulgo Lobão.

Aguardava a leitura deste 50 Anos a Mil (veja aqui o exemplar do livro à venda na Saraiva, com preço bem em conta)  escrito por ele em parceria/ajuda do jornalista Cláudio Tognoli com ansiedade, uma vez que sempre gostei do trabalho de Lobão como músico. Quando adolescente, criei várias estrofes extras para Me Chama, trabalhando com sua rima. Infelizmente os perdi; o que não sinto posto que os momentos da vida do autor que deram vida para cada daquela música, como a frase magnífica com “Nem sempre se vê mágica no absurdo” jamais seriam possíveis vindos de outra pessoa, pois eram sentimentos só dele, que penso ter dividido solidariamente conosco neste neste livro.

O tom narrativo do livro está indicado antes do prólogo, com a nota do editor informando que “O léxico e a sintaxe” do autor-personagem foram mantidos, tão peculiares nesta pessoa que acreditem, nem reconheceríamos esta história se não fosse contada exatamente da forma que ele mesmo conta. Lobão é um grande contador de histórias, isso fica bem claro ao ler o livro. Entra em detalhes, não omite nada por vergonha. Ler este livro quase como ter sua voz dissonante e límpida soando em nossa mente, o tempo todo, como todos os exageros, desvios e cortes que somente ele conseguiria adicionar. Togonoli é quem tem o trabalho se supervisionar, e colocar de volta em seu lugar o fio que por muitas vezes Lobão perde. Quem dera, como tantas coisas peculiares a contar, é impossível não perder-se.

Aconselho uma segunda leitura para ordenar tantas memórias da própria história de nosso país que o biografado invoca. Sua vida retrata fatos que fizeram parte da vida de muitos brasileiros, é possível que uma multidão veja-se em suas experiências pessoais, com problemas familiares (separação dos pais), suicídio (da mãe), família (grande), amores e dissabores. A ditadura, as crenças populares, a família, o sair de casa, os tombos e tropeços…

Admiro Lobão agora mais do que antes por saber tantas coisas sofridas pelas quais ele passou, por tantas vezes ter se reerguido sem nunca perder o bom humor, por ter errado e aprendido, e ter se arrependido e, principalmente, por ter vivido, coisa que hoje em dia, poucos sabem fazer. E por ter lindamente transformado toda a sua vida em música, que é o que ele ama e sabe fazer, local comum onde nos reconhecemos.

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